Jorge. Um brasileiro.
Arte no Masp. Basta ler esta frase e já podemos ver os velhos chapéus serem retirados das cabeças pensantes de nossa sociedade. Obviamente, devemos tal respeito, pois é neste espaço que pernoitam as mais expressivas, notórias e diversificadas formas de arte de nosso país e também de outras partes do mundo. Mas, será que é só neste local que a mais famosa avenida paulistana acolhe os mais talentosos artistas? Talvez não. Digamos um "não" se olharmos para fora do Masp. Peço calma, arquitetos, não falo das grandes vigas suspensas nas laterais do museu que deixam (para leigos, inexplicavelmente) um enorme vão abaixo do mesmo; digo (e indago) sobre arte feita a poucos metros dali, e esse dali não é tão renomado quanto o Salvador. Saindo do museu, ou mesmo antes de entrar nele, encontramos Jorge, um artista que ninguém conhece, mas que faz sua arte próxima ao museu. Cidadão como tantos outros, Jorge exerce seu trabalho artístico em placas de papelão ou material similar, no qual são depositadas as tintas, cores e formas de seu talento através de um reles spray. Resumo da obra: tinta, papel e talento. Pois bem! É o que temos nesta quase despercebida obra de arte de Jorge. Aí vem a indagação deste outro brasileiro: O que tem dentro de algumas obras de arte que se encontram dentro do Masp? Tais quadros ou instalações, também não se resumem à tinta, papel e talento? Não venho por meio desta denegrir artistas nem atacar, ainda que equivocadamente, o respeitado e difícil ofício de curadores, muito pelo contrário, tenho admirado diversas obras, de diferentes artistas, uns renomados, outros, nem tanto, mas a questão é: onde fica o papel de Jorge? Abaixo das tintas ou abaixo de artistas? Sua tarefa é bem simples e rápida de se fazer, sem grandes pretensões, pois sabemos que Jorge (que também tem um assistente, o Araújo) vende suas obras por algo em torno de 20 reais. Nota-se cores vivas e vibrantes inseridas em diversos temas que ele costuma criar ali mesmo, na calçada, mostrando sua criatividade e originalidade em meio a transeuntes pouco preocupados com sua arte. Talvez não tenha estudos específicos como alguns que mostram seu trabalho no lado de dentro do museu, mas ali, bem ali na calçada, existe um talento a ser admirado, um talento nato, fiel, perseverante, pacífico, chegando por vezes a beirar algum teor mais excêntrico, mas demonstra, na simplicidade, certa ternura de nuances e passividade artística. Mas, por que não ser assim? Por que estar do lado de fora, Jorge? Por quê? Uma coisa é certa, não sabemos a resposta para isso, sequer a sociedade sabe. Mas a mesma sociedade, mesmo sem saber, deveria abrir os olhos e olhar para os lados para, em dado momento, poder oferecer reconhecimento artístico para artistas dito marginalizados. O mundo muda, a sociedade também. Talvez Van Gogh, se vivo ainda fosse e estivesse molhado nessa garoa, possivelmente seria Jorge. Pouco ou nada sei sobre arte, nem tenho tamanha pretensão, mas friso a idéia de que enquanto muitos pintam e bordam, outros costuram e passam a ferro todo dia, sem glamour, sem dinheiro no bolso, sem comer, sem saber, sem nada e sem nada saber. Cada um faz sua arte, cada um expressa alguma coisa, cada um na sua. Mas arte não se entende, não se vende, não se compra, não se rouba, não se empresta, se contesta, fere, vinga, xinga, bate, cala, grita, cospe, irrita. Ora estoura, ora acalma. Mas arte não é corpo, arte é alma. E Jorge? Jorge é um brasileiro.
João Aranha
16/06/2004
Cala a boca
Cala minha boca
Cala minha alma
Cala-me agora
Diga que não quer
Um beijo em tua alma
Um corpo em tua sauna
Um fogo não se acalma
Não grite, não fuja, não saia
Chama alma
Nada alva
E minha alma
Só te chama
Que não chama
Que não ama
Que não fala
Só me cala
Essa tua boca
Que deixam loucas
Muitas bocas
Que ora selam
Mas não te calam
Sequer eu calo
Minhas cordas roucas
Que tu não ouves
Num gesto oco
Onde o muito ainda é pouco
Pra deter o meu sufoco
E gritar na tua cara
Que teu beijo é que me cala
Põe em risco a minha fala
Titubeia, quase indaga
Do meu cerne eu tenho pena
Coração pede safena
Tara louca é ter tua boca
Não a tenho, sou ferrenho
Minha ira não é pouca
De mandar
Calar tua boca.
João Aranha
07/07/2004
Poesia e Concreto
Aqui me vejo
Aqui me encontro
Aqui me noto
É estranho me estranhar
Mas nada estranho te estranhar
Está aqui, estou aqui, estamos aqui
Garoa cinza em céu azul
Foge a ilusão, cai a verdade
Lota tudo, corre, passa
E ultrapassa quem vacila
Já tem fila, toca, anda
Abre a porta pra eu entrar
Sou mais um neste mar rijo
E me corrijo se eu falhar
Anda reto no sobe e desce
E me aparece pra ficar
Lindos rostos a encontrar
Pedra firme, um patamar
Gente boa, gente forte
És insana mas tem porte
Para teus bens, meus parabéns!
Acorda cedo e à noite ginga
Dos simples campos de Piratininga
Um pobre João, talvez João Carlos
Já foi da Vila, a de São Carlos
Tão louca linha que já me guia
Corro atrás da minha valia
Na quente respiração
Deste frio hálito
Envolve tudo, envolve todos
Terra que anda, engarrafa, manda
Mais um sertão a desbravar
Por que ser tão disciplinar?
Norte, Sul, Leste, Oeste
Fico no centro a trabalhar
És cômica, és rude
És amiga, és desfrute
Nunca dorme anoitecer
Vai pro país o teu crescer
Tão desvairada, fica molhada
A Paulicéia tem sua fada
Quem tem fé desce na Sé
Dizem que é exagero
Talvez até demais esmero
Eu noto, sou tantã
Abro a janela, Butantã
Sozinho corro, ligo, acordo
Pago sufoco, estou à bordo
Não sou Caetano
Tampouco Adoniran
Bem como os tons Jobim e Zé
Só puxo a corda
Nesse ponto eu desço
E agradeço
Quem te pinta e borda
Podem xingar
Te maltratar ou falar mal
Por mim continuas bela
És imponente
És capital.
João Aranha
26/01/2005
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