Gosto

O que eu gosto
É passar minha palma da mão
Em seu rosto
Meu gosto
Bom gosto
Que eu gosto.

João Aranha

26/05/2008

Cervantes

Na rua
Na chuva
No sol
Tua mão me segura
No mais
Tudo
Em tudo
Nada mais
Nada mais que o toque
O toque de suas mãos
No rosto
Meu gosto que eu gosto
Sou ser falante
Por vezes errante
E no mirante
Que não foi Leblon
Muito além, bem bom
Meu ser errante
Aprende o infante
Que o amor deixa seu rastro
Num frio que não tem neve
Mas há calor
Calor me leve
Pra direita
Pra esquerda
E no meio do quadrante
Pra onde vamos?
Cervantes
Ser antes?
Ser depois?
Não, ser agora
Agora me namora
O perfume rosa
Gostosa noite
Mão carinhosa
E num sorriso
Bela, formosa
E no mesmo instante
Vem paz tocante
Que dorme e acorda
Copacabana
Passeio na orla
E no pé de vento
Beijo é sustento
Vem calor
Não demora
O carinho está
Botafogo, Humaitá
E no Flamengo, meu dengo
Ipanema, Visconde de Pirajá
Vem já, o meu amor
Que coisa boa
Passeio, Lagoa
Rio, coisa boa
Eu rio, à toa
E mesmo distante
Amor conservante
Serve-se antes
Na sede, epiglote
Meu mote é bom
Quixote é Dom
Vamos pra casa
Que o dia foi bom.

João Aranha

(05/05/2008)

Mãos

Uma mão segura
Segura outra mão
Segura mão que assegura
Assegura a mão de menino
Que segura a mão doce
Mão que vai
Mão que vem
No infinito vai e vem
De duas mãos
Uma mão segura a outra
E na voz rouca
Que me tira o chão
Beijo a mão
Sinto a calma
A calma que só tua palma
Faz da alma um coração
Um beijo que sela
Na luz da janela
A terna cena
Dos carinhos de tuas mãos.

João Aranha

05/03/2008

Dúvida, Dívida, Dádiva.

Na dúvida temos a dívida
A dívida que busca a dádiva
Dádiva esta que mostra o fim da dúvida
Dúvida de tudo
Dívida de muito
Dádiva de nada
Dúvida de endividar-se
De perder a dádiva
E permanecer na dúvida
Dúvida ávida de não ter dúvida
Dívida ávida de dádiva
Dádiva que finda a dúvida
Uns tem dúvida
Muitos têm dívida
Raros têm dádiva
A dádiva da vida é duvidar-se
A dívida da vida é a busca da dádiva
A dúvida da vida é a vida sem dívida?
A diva não tem dívida
A vida sempre tem dúvida
A vida da diva não tem dádiva
Da vida resta a dúvida:
Teremos sempre dívida?
A vida é feita de dúvidas?
De onde vem a dádiva?
Viva a vida
Sem dívida
Sem dúvida
Veja a dádiva
Divida a dívida
Duvide da dúvida
Viver a vida
É uma dádiva.

João Aranha

22/02/2008

Jorge. Um brasileiro.

Arte no Masp. Basta ler esta frase e já podemos ver os velhos chapéus serem retirados das cabeças pensantes de nossa sociedade. Obviamente, devemos tal respeito, pois é neste espaço que pernoitam as mais expressivas, notórias e diversificadas formas de arte de nosso país e também de outras partes do mundo. Mas, será que é só neste local que a mais famosa avenida paulistana acolhe os mais talentosos artistas? Talvez não. Digamos um "não" se olharmos para fora do Masp. Peço calma, arquitetos, não falo das grandes vigas suspensas nas laterais do museu que deixam (para leigos, inexplicavelmente) um enorme vão abaixo do mesmo; digo (e indago) sobre arte feita a poucos metros dali, e esse dali não é tão renomado quanto o Salvador. Saindo do museu, ou mesmo antes de entrar nele, encontramos Jorge, um artista que ninguém conhece, mas que faz sua arte próxima ao museu. Cidadão como tantos outros, Jorge exerce seu trabalho artístico em placas de papelão ou material similar, no qual são depositadas as tintas, cores e formas de seu talento através de um reles spray. Resumo da obra: tinta, papel e talento. Pois bem! É o que temos nesta quase despercebida obra de arte de Jorge. Aí vem a indagação deste outro brasileiro: O que tem dentro de algumas obras de arte que se encontram dentro do Masp? Tais quadros ou instalações, também não se resumem à tinta, papel e talento? Não venho por meio desta denegrir artistas nem atacar, ainda que equivocadamente, o respeitado e difícil ofício de curadores, muito pelo contrário, tenho admirado diversas obras, de diferentes artistas, uns renomados, outros, nem tanto, mas a questão é: onde fica o papel de Jorge? Abaixo das tintas ou abaixo de artistas? Sua tarefa é bem simples e rápida de se fazer, sem grandes pretensões, pois sabemos que Jorge (que também tem um assistente, o Araújo) vende suas obras por algo em torno de 20 reais. Nota-se cores vivas e vibrantes inseridas em diversos temas que ele costuma criar ali mesmo, na calçada, mostrando sua criatividade e originalidade em meio a transeuntes pouco preocupados com sua arte. Talvez não tenha estudos específicos como alguns que mostram seu trabalho no lado de dentro do museu, mas ali, bem ali na calçada, existe um talento a ser admirado, um talento nato, fiel, perseverante, pacífico, chegando por vezes a beirar algum teor mais excêntrico, mas demonstra, na simplicidade, certa ternura de nuances e passividade artística. Mas, por que não ser assim? Por que estar do lado de fora, Jorge? Por quê? Uma coisa é certa, não sabemos a resposta para isso, sequer a sociedade sabe. Mas a mesma sociedade, mesmo sem saber, deveria abrir os olhos e olhar para os lados para, em dado momento, poder oferecer reconhecimento artístico para artistas dito marginalizados. O mundo muda, a sociedade também. Talvez Van Gogh, se vivo ainda fosse e estivesse molhado nessa garoa, possivelmente seria Jorge. Pouco ou nada sei sobre arte, nem tenho tamanha pretensão, mas friso a idéia de que enquanto muitos pintam e bordam, outros costuram e passam a ferro todo dia, sem glamour, sem dinheiro no bolso, sem comer, sem saber, sem nada e sem nada saber. Cada um faz sua arte, cada um expressa alguma coisa, cada um na sua. Mas arte não se entende, não se vende, não se compra, não se rouba, não se empresta, se contesta, fere, vinga, xinga, bate, cala, grita, cospe, irrita. Ora estoura, ora acalma. Mas arte não é corpo, arte é alma. E Jorge? Jorge é um brasileiro.

João Aranha

16/06/2004

Cala a boca

Cala minha boca
Cala minha alma
Cala-me agora
Diga que não quer
Um beijo em tua alma
Um corpo em tua sauna
Um fogo não se acalma
Não grite, não fuja, não saia
Chama alma
Nada alva
E minha alma
Só te chama
Que não chama
Que não ama
Que não fala
Só me cala
Essa tua boca
Que deixam loucas
Muitas bocas
Que ora selam
Mas não te calam
Sequer eu calo
Minhas cordas roucas
Que tu não ouves
Num gesto oco
Onde o muito ainda é pouco
Pra deter o meu sufoco
E gritar na tua cara
Que teu beijo é que me cala
Põe em risco a minha fala
Titubeia, quase indaga
Do meu cerne eu tenho pena
Coração pede safena
Tara louca é ter tua boca
Não a tenho, sou ferrenho
Minha ira não é pouca
De mandar
Calar tua boca.

João Aranha

07/07/2004

Poesia e Concreto

Aqui me vejo
Aqui me encontro
Aqui me noto
É estranho me estranhar
Mas nada estranho te estranhar
Está aqui, estou aqui, estamos aqui
Garoa cinza em céu azul
Foge a ilusão, cai a verdade
Lota tudo, corre, passa
E ultrapassa quem vacila
Já tem fila, toca, anda
Abre a porta pra eu entrar
Sou mais um neste mar rijo
E me corrijo se eu falhar
Anda reto no sobe e desce
E me aparece pra ficar
Lindos rostos a encontrar
Pedra firme, um patamar
Gente boa, gente forte
És insana mas tem porte
Para teus bens, meus parabéns!
Acorda cedo e à noite ginga
Dos simples campos de Piratininga
Um pobre João, talvez João Carlos
Já foi da Vila, a de São Carlos
Tão louca linha que já me guia
Corro atrás da minha valia
Na quente respiração
Deste frio hálito
Envolve tudo, envolve todos
Terra que anda, engarrafa, manda
Mais um sertão a desbravar
Por que ser tão disciplinar?
Norte, Sul, Leste, Oeste
Fico no centro a trabalhar
És cômica, és rude
És amiga, és desfrute
Nunca dorme anoitecer
Vai pro país o teu crescer
Tão desvairada, fica molhada
A Paulicéia tem sua fada
Quem tem fé desce na Sé
Dizem que é exagero
Talvez até demais esmero
Eu noto, sou tantã
Abro a janela, Butantã
Sozinho corro, ligo, acordo
Pago sufoco, estou à bordo
Não sou Caetano
Tampouco Adoniran
Bem como os tons Jobim e Zé
Só puxo a corda
Nesse ponto eu desço
E agradeço
Quem te pinta e borda
Podem xingar
Te maltratar ou falar mal
Por mim continuas bela
És imponente
És capital.

João Aranha

26/01/2005

Ventos

Frio na noite
Abraço o vento
No tormento
De não te ter

Lábios quentes
Fluxo, corrente
E no vento
Coração lento

Luz da Lua
A vendo nua
No branco
Nos brancos

Veludo, pele, tudo
Boca molhada
E na calada
Mais nada

Olhar sem ter
Teu olhar
Sal nos olhos
Dedos no rosto

Colo, fogo, lanterna
Sala de estar
Frio, calor
Você

Vento, vento
Lento, lento
Vendo-o lento
Fomento

Abraços, corredores
E no frio
Teu calor
Sal, saliva, à deriva

Pára o vento
Rosa, mostarda
Noite tarda
Paz não falha

Toque seu
Melodia
Abraça a dor
É dia

Escuro, vasculho
Sal na mesa
Vestes pretas
Alva, rosa, beleza

Esperas, esquinas
Vozes moles
Sorrisos
Traquinas

Volta vento
Som da brisa
Pele, flor da pele
Café preto, suaviza

Abraço o vento
Verde, cevada
Cigarro eu trago
Parede tomada

Agosto ao gosto
Setembro lembro
Letras, formas, verbos
Beijo atento

Visitas nas calçadas
Sangue por dentro
Olho a Lua
Abraço o vento

João Aranha

04/10/2007

Não me calo para não calar-te.

Última flor
A cada dia
Mais longe do Lácio
Mais perto da sepultura
Ouro nativo
Para tantos inativos
Esplendor ignorado
Por incultas e não belas
Bruta é tua morte
De um recorte triste
Mas ainda vejo-te em riste
Maltratam-te
Ignoram-te
Não te ouvem
Tampouco passam os olhos
Estes meus, apaixonam-se
Oro para que não sumas
E que não matem
A chama de tua vela
Que nunca sejas velada
Muitos reis fizeram-te plena
Um príncipe, não maquiavélico
Há tantos anos
Tão parnasianos
Fez-te mais culta
A última flor mais bela
De jardins da infância
Até o leito de um ser idoso
Versos de tom pomposo
Fico orgulhoso
Por abrir janelas
Olavo, teu príncipe
Um entre tantos
Ergueu-te
Entre tantos flertes
De língua, verbetes
Paira uma tristeza
Da prematura incerteza
De não mais um dia ver-te
Vossa mercê
Espero que levante
E com tanta gente infante
De modismos e armadilhas
Estão matando tuas cedilhas
Não espero um ponto final
Quero que grites ao jornal
Local e mundial
Mostre teu idioma
Filho de Roma
Grite com aspas e travessões
Tuas sofridas agressões
Linha por linha
Espero que não definhas
Agradeço
Desde meu pueril começo
Que mostrou minha Pátria
A Mátria
A Fátria
Que precisa de mais bandeira
Que erga com exclamação
Tua língua é meu poema
Minha língua, um dilema
Onde quer que vá
Não esqueça de teus filhos
Que em seus trilhos
Sempre atentos
Ao Be-A-Bá
Última flor
Desejo que continues
E que o desprezo
Não seja impune
Falemos a nossa língua
Que sempre amamos
Que de tão linda
Sempre nos une.

João Aranha

11/09/2007

O povo, unido, jamais será enrustido.

Entrei sem saber, na realidade, entrei sabendo só um pouquinho, quando li uma pequena notinha (bom, se ela é notinha ela já é pequena, João) afixada na parede, como sempre fica no Espaço Unibanco e eu, como sempre, dou uma lidinha rápida, caso não tenha lido nada na Folha ou na internet e, também como sempre, digamos que eu decido na hora qual filme vou assistir. É verdade. Eu, normalmente, dou uma xeretada nos filmes lançados bem antes de sair, mas, ultimamente, tenho lido poucas horas antes da saída até o cinema e, mais precisamente, estou decidindo na hora mesmo, posto que lá, sempre tem filme bom passando. Você pode até nem conhecer nada sobre a película, mas sempre vai ter um filme de qualidade, talvez, no máximo, você até não simpatize tanto com a obra, não esteja dentro daquilo que você pretendia assistir, mas você verá que tem qualidade, tem roteiro, tem linguagem, e bota linguagem nisso, pois sempre rolam filmes nacionais, latinos, europeus, asiáticos e uns americanos do circuito independente e, por isso mesmo, estão dentro do meu apetite imagético e sonoro pra aguçar meus sentidos, todos eles, porque pra mim, cinema é uma catarse, e todas as linguagens estão lá. Assistir um bom filme, ainda mais sem saber nada sobre nadinha sobre o que vai ver é um tanto instigante, mas, detalhe, isso só rola em espaços onde o verdadeiro cinema existe, como o qual eu me refiro. Aliás, uma das coisas que gosto de fazer quando vou lá é ficar sentado fumando um cigarrinho, olhando pessoas, observando os óculos das meninas, observando as meninas, as pernas, olhos e sorrisos das meninas, o papo entre os casais, as barbas e cabelos desarrumados dos caras com camisetas bacanas, all stars levemente sujos, as charmosas faixas nos cabelos das mocinhas, ora bonitas, ora não bonitas, mas, à toda hora, estilosas. E, com o passar do tempo, prendo meus olhos na gigante foto de Oscarito e Grande Otelo, lindamente exposta na parede externa da sala 1. Fico imaginando eu, louco por cinema e suas conseqüencias nos dias de hoje e vendo que, a hilária dupla, já estava nas telas bem antes do meu pai namorar a minha mãe. Peraí...hmmm, é, é isso mesmo, meu pai ia ao cinema bem antes disso. Meu pai é doido por Mazzaropi, sempre gostou de propaganda e sempre fez trocadilhos. Pois é, deu no que deu, um publicitário doido por cinema e viciado em trocadilhos 25 horas por dia. Valeu pai. Sou assim e sou feliz.
Então, voltando... Eu? Prolixo? Imagina... Li a coluninha sobre Bubble, um filme que se passa em Tel Aviv e que narra a história de um namoro entre dois homossexuais, um judeu e um palestino. Bingo! O cara usou uma polêmica com uma polêmica de pano de fundo. Resultado: Polêmica. Mas não tanto. Vamos lá!
Eu não sou entendedor de cinema, apenas dou a minha opinião sobre o que gosto e o que não gosto e tampouco sei sobre política, ainda mais internacional, portanto, pode ser que eu fale algo fora do contexto, com certeza, mas o que importa é a opinião, né não?
Estava eu lá vendo um filme gay com a política do oriente médio fazendo a cama da trama. E, falando em cama, eu nunca vi um filme gay, é sério. Não tenho preconceito, tenho alguns amigos gays, mas cenas de sexo entre dois homens, objetivamente, não me atraem em nada mas, também, não me chocou em nada. De verdade. Achei muito interessante mostrar o relacionamento não de caráter sexual entre dois homens, mas o namoro em si, a paixão entre dois rapazes que, em meio à modernidade dos fatos e polêmicas mil, é adicionada ao tema brutal da eterna guerra entre dois povos que não se entendem nunca. Duas culturas diferentes, dois deuses diferentes, duas políticas diferentes, mas com duas pessoas iguais. O diretor israelense Eytan Fox, pelo que li (não assisti suas outras películas), é famoso por temas polêmicos e, desta vez, eu achei muito interessante retratar, sem malícia, sem perversão e sem purpurinas em excesso, aliás, é um filme sem purpurinas mesmo, um filme moderno, simples e verdadeiro, que mostra a dificuldade de dois homens se relacionarem com o peso da briga fatídica de dois povos arcaicos nas costas. Um filme bem feito que fala dos problemas sociais mas não com bandeiras e militâncias, mas com um olhar direto, com uma narrativa clássica e com um leve toque cômico, um humor leve e natural das cidades grandes, mas que, em determinado momento, pairam a tristeza pela incerteza do amanhã, a agonia da constante invasão com ataques terroristas e o medo de sair do armário (retratado pela família do palestino, onde o homossexualismo nas terras de Alá é banido de forma brutal e estúpida). O filme fala, sobretudo, de amizade, pois no apartamento moram três judeus, um é gay também, que mantém um caso com um cafajeste também gay, e o outro é outra, uma judia que, sinceramente, judia de minha alma, linda (me apaixonei, não teve jeito), é a única heterossexual, que também tem um affair com um homem também cafajeste. Juntos, formam uma turma de jovens (jovens na faixa dos 30) que ralam para ganhar o seu dinheiro, têm sua independência financeira e social, mas que vivem num país onde a paz não existe. Talvez exista dentro das casas, mas esta se dissipa rapidamente ao ouvir o estrondo de bombas e tiros nas avenidas, ruas e vielas, isso quando a maldita não entra dentro da própria casa.
Um filme que todos deveriam assistir, sem preconceito. Sem preconceito e com muita reflexão para vermos ou pensarmos que a vida das pessoas precisa de paz interior. Uma paz que, de dentro pra fora, faz-se a externa. Um filme para analizar friamente, que o problema do mundo não é dos governantes somente, mas de todos nós. Se aceitarmos as pessoas como são, a paz vem. É simples, é fácil, é digno. De nada adianta atacar uns aos outros em busca da terra prometida se na terra nada se promete em busca de harmonia.
Um filme simples que fala, com simplicidade, sobre coisas nada simples de resolver mas que, simplesmente, pode ser menos complexo pela ótica que estamos acostumados.
Um final surpreendente, um tema atual, uma nova reflexão e uma discórdia de séculos de ignorância regida por seres nada humanos.
E a terra prometida, ficou submetida à humildade que não existe em nenhuma das comunidades.
Um filme na tela, filmado em Tel Aviv, representado em uma terra em que pouco se vive.

João Aranha

30/08/2007

PS) Não sou contra judeus nem palestinos, pelo contrário, admiro as duas culturas, só não entendo porque o cessar fogo nunca será dito.

Um dia limpo.



Hum... nove horas da manhã. Olho no relógio, com uma leve dor de cabeça somada ao ressecamento dos lábios devido à noite anterior, sim, duas baladas, um aniversário de um grande amigo e mais um fim de noite num bar, no centro de São Paulo, regado à muito rock n´ roll. Uns tiozões da era do rock propriamente dito, uns dinossauros tocando sons dos dinossauros, espetacular, faz um tempo que não terminava a noite num belo bar de rock, com os melhores e grandes hits do som rebelde nascido, praticamente, em 1955. Vocês acreditam que os tiozões tocaram Iron Man, do Sabbath? Olhei para o meu amigo ao lado e sorrimos de emoção e surpresa pois, até então, o som que imperava era algo em torno de Creedence e Stones, por isso a alegria nossa de ver a tradição do bom e velho rock ser invadida pelo belo, velho, mas sempre novo, heavy metal clássico de Mr. Ozzy junto aos riffs maravilhosos de Tony Iommi. Mas...voltando ao relógio...


Agora, dez da matina, ainda com muito sono, mais cansaço do que sono, ela ainda não tinha chegado, graças ao bom Pai. Onze e pouco, que na realidade, onze é pouco. Precisava dormir mais, meus neurônios não raciocinavam e meu corpo jazia ali na cama, na busca de mais horas intermináveis de sono pesado, pesado como o som que ouvi a poucas horas antes de deitar.


Interfone toca. Ok, pode mandar subir. Era Verinha, trabalha com a gente lá na agência. Como o mercado está ruim, até ela veio fazer um frila em casa, entendo perfeitamente, faço uns de vez em quando. O problema eram os líquidos responsáveis pela limpeza. Claro, João, ficou de deixar pra última hora, deu no que deu. Toca a levantar pra comprar Cândida, desinfetante, álcool (um parecido com o que eu tinha consumido na noite anterior), panos de chão e algo mais. Desci na padoca, pedi um pingado. Por que raios que sempre o pingado vem com natas? Odeio natas. E o que custa colocar o pingado numa xícara? Nada contra copos americanos (uma das poucas coisas americanas que eu gosto), mas sempre me leva a crer que o famigerado e bom pingado não vai esfriar nunca, tenho sempre a sensação que vou ficar meia hora esperando a temperatura baixar para não queimar a língua. Bom, na troca do utensílio doméstico (porém, utilizado em estabelecimentos comerciais), a enxaqueca foi-se. Bom, ela foi, mas ainda ficou a essência do “o que eu estou fazendo na rua com este sol escaldante em cima de mim onde não suportarei nenhuma buzina no meu ouvido em plena madrugada raiada pelo astro-Rei?”


Bom, deu uma melhora, mas foi engraçado ir ao supermercado, logo ali, umas quadras perto do apê, pensando no que comprar para a faxina, posto que até já comprei estes produtos de limpeza, mas nunca só eles. Me senti como minha mãe indo ao supermercado. Ela, com certeza iria falar, João Caaaaarlos, faça uma listinha. Mas como sou contra listas, nem no pijama, aliás, não tenho pijama, tenho moletons velhos que visto, muito mais confortáveis que estas vestimentas almofadinhas que trazem bolsos totalmente desnecessários no paletó, que até hoje não sei para que servem, acabei não anotando nada.


Adoro supermercados. Gosto bastante, desde criança. Gosto de passear, sem compromisso sério, procurando produtos para o lar e, desta vez, era pro meu lar, embora pague aluguel, considero meu lar. Como gosto tanto destes lugares, por mim, ficaria horas lá, só lotando o carrinho de produtos desnecessários para o meu cotidiano. Gosto muito dos corredores que encontramos os desinfetantes, sabões e afins. Me sinto num bosque florido, cheio de perfumes matinais na primavera campestre dos campos holandeses. Nossa, essa frase soou meio gay, concordo, mas é bom sentir o cheirinho de limpeza, nos faz bem, nos faz acreditar que a vida vale a pena e que, é só passar um paninho que tudo melhora em nossas vidas. É a mesma coisa que sinto quando formatam ou consertam alguma coisa no computador da gente, me sinto limpo, aliviado, parece que acabei de tomar banho. Eu compraria dúzias e dúzias de produtos de limpeza, só pra ver a embalagem brilhando em nossas vidas e com a essência de diversos perfumes invadindo nossa casa. Dá vontade de comprar tudo, tudo mesmo, até coleira de cachorro dá vontade de comprar. Tenho um cachorro, mas não aqui em Sampa, em Campinas, saudades dele, do Rush (sim, sou fã da banda que deu origem ao nome, praticamente, o longa que deu origem à série).


(continuação, logo abaixo)

Mas, mesmo assim, dá vontade de levar. Dá vontade de sair cheio de shampoos, condicionadores, até absorventes dá vontade de comprar, mesmo sem a necessidade do uso. Se bem que serviriam para limpar janelas, ou como calço para o fogão, ele está meio bambo, ou bamba? Sei lá. Só sei que quando cheguei na parte dos panos, caramba (é pra não dizer caralho), fiquei bobo de ver o preço de um simples pedaço de pano que vai direto ao chão, de encontro às bactérias e afins. Quase 5 reais? Isso vai dar pano pra manga! E outra, tive de comprar mais, ou seja, uns 15 reais praticamente, fora a Cândida e outros irmãos da limpeza. Esta, a famosa mencionada, tinha uma demonstradora falando das vantagens do produto e queria me empurrar um conjunto de garrafinhas bonitas (essa publicidade, viu?) e dizendo que eu levaria produtos da mais aaaaalta qualidade...nesta hora eu sorri e não resisti, ela notou que eu notei uma frase decorada. Bom, é o trampo dela, não podemos reclamar, mas vir pra cima de mim, com óculos escuros, de ressaca e com o corpo andando mais por instinto do que por necessidade, aí não dá, né? Despistei a mocinha e fui ao caixa. Lembrei de mamãe, de novo, e notei que a vida muda, não tem jeito. Há muitos anos, eu seria o garoto que puxaria a saia da minha mãe ou viraria o queixo dela pedindo atenção (eu fazia isso, hoje me arrependo profundamente em pensar como eu era chato nessas horas) e também pedindo para comprar potes e potes de iogurte, chocolates e refrigerantes. Hoje, loto o carrinho de cervejas e amendoins, apartamento de solteiro não tem jeito, como diz meu amigo, compra de solteiro é sempre assim, cervejas, cigarros, salgadinhos, camisinhas, algumas revistas e, o extremamente necessário também vai, mas só o extremamente necessário.

Pois é, o tempo passa, a vida muda e a poupança Bamerindus continua numa boa, ou seja, faliu.

Pois é 2, o tempo passa mas algumas coisas não mudam nunca. Estava vendo televisão, bem depois da compra, e pensei, nada muda neste mundo. O salário não vai aumentar, a violência só vai piorar, as drogas sempre existirão, sempre existirão pobres e ricos e assim vai. Não tem esta de acreditar que o mundo vai melhorar, as coisas não são assim, tudo é uma questão de interesses. Sempre existirão políticos corruptos, sempre, ou vocês acham que vai chegar um dia que veremos os noticiários e nunca mais ouviremos nada em relação a um escândalo absurdo de desvio de verba ou algo parecido? Acham que o narcotráfico vai acabar? Que as escolas públicas vão atingir os níveis de excelência (na maioria, ok?) iguais ao ensino particular? Será que um dia vamos ver que não existe mais seqüestro, bombas e assaltos por aí? Será que o sistema carcerário brasileiro vai proibir de verdade o uso de celulares dentro do presídio e que, com isso, nossa sociedade perde, cada vez mais, espaço e liberdade para viver? Olha, vocês podem me achar pessimista, mas eu não sou, pelo contrário, me considero é muito otimista. Sei dos problemas que acontecem, mas acho que as coisas vão melhorar sim, mas estas, que citei, não acredito não. Muitas outras podem ocorrer, mas crime e valores de salário, por favor, esqueçam. Se isso acontecer, prometo voltar aqui e reconsiderar meus comentários, mas, acho difícil...

Passei no caixa, aiaiai, no crédito, por favor, prefiro. Normalmente uso o “chora agora” (mais conhecido como cartão de débito), pra não chorar no fim do mês, mas este, preferi adiar meu sofrimento.

Voltando para casa, sorri, ao ver que a compra estava feita e que meu humilde cafofo ia ficar limpinho e perfumado. E isso, podem acreditar, faz a gente pensar que a vida vale a pena, pois limpando nosso lar é que podemos limpar a mente e, conseqüentemente, limpar o mundo. Sou otimista sim, pois amo a vida e adoro os pequenos prazeres que ela proporciona, tipo...ir ao supermercado, falar besteiras num bar e rir à toa, ou melhor, até rir de mim mesmo me deixa feliz. Considero as pessoas que não riem de si mesmas um porre, um porre muito maior do que eu tive antes de dormir. E isso, é uma ressaca sem cura.

                                                                                

João Aranha

 

20/08/2007

O adágio pede plágio.

Olá, pessoas!

Faz um tempo que não posto nenhuma crônica aqui, posto que faz tempo que não escrevo nenhuma, óbvio. Em primeiro lugar, porque eu queria escrever sobre vários assuntos e, ao mesmo tempo, e talvez por este motivo, sempre acabava não definindo o que eu queria colocar nas linhas, em segundo porque, mesmo com uma demasiada vontade de regurgitar inúmeros pensamentos e idéias não via nenhum assunto interessante para escrever, mesmo porque o assunto até poderia ser interessante, mas o autor aqui não estava muito interessante, ou melhor, o cérebro não estava em sintonia com as mãos e, em terceiro, talvez até o maior motivo, nunca dava tempo de sentar na minha mesa e começar algo, nunca, e pior, quando dava tempo, o já mencionado cérebro não estava disposto a labutar, bem como minhas, também já citadas, mãozinhas brancas também não estavam predispostas a bater com voracidade nos teclados escuros daqui. Enfim, após esta pífia, oca e prolixa introdução, tentarei iniciar algum texto, que tenha contexto, ou não.
Estava eu, sentado no puff que hoje mais parece uma esfirra de queijo fria e pisada) do apertamento (isso mesmo, você leu apertamento, essa é antiga, mas eu quis colocar) assistindo à TV, mais precisamente o telejornal, quando vi, ouvi e ri sobre a notícia do Nélson Piquet ter perdido sua carteira de habilitação por tantos pontos acumulados por excesso de velocidade. Sim, eu ri, achei muito engraçado mesmo ver o nosso tri-campeão sentadinho na cadeira do Detran fazendo aulas de direção defensiva ou coisa parecida. Enfim, achei muito cômico vê-lo todo quieto, prestando atenção no professor, mas, na realidade, o que eu gostaria de dizer não é bem sobre este fato ligeiramente hilário, muito pelo contrário, apesar dos risos em alto e bom tom (sim, eu rio sozinho em casa, falo com a TV, choro, xingo e questiono tudo em voz alta mesmo), eu fiquei pensando seriamente neste negócio de punição. Com o fato engraçado das cenas assistidas eu, particularmente, gostei muito de ver que as coisas estão acontecendo, digo as coisas que se têm de fazer para que as infinitas coisas possam dar certo nesta coisa chamada país...que coisa, né? Fiquei contente de ver, como até um aluno entrevistado também disse, que pelo menos estão cumprindo as leis mesmo com famosos e endinheirados. Não, isso não é uma defesa minha sobre o governo, mesmo porque não tem muito o que defender ultimamente sobre os três "poderes" brasilienses, pra não falar brasileiros. E é aí o ponto onde quero chegar.
Pensei (pra variar, sempre pensando besteiras, mas pensei em uma que faz tempo que tinha pensado), pensei, pensei e...porque não fiscalizar, multar, punir, ou sei lá mais o que, por parte deste governo desgovernado, as pessoas que jogam lixo nas ruas? Já pensou?
Estava analisando que nunca o cinto de segurança foi obrigatório e que, há quase dez anos (é isso mesmo?) bastou o governo cobrar multa pelo não uso da camisa da Ponte Preta ao dirigir que todo mundo saiu usando (sim, uns adorando, outros detestando), mas no começo foram só temas desgastantes na mídia televisiva e impressa sobre o fato mas que, querendo ou não, não se fala mais nisso atualmente. Ou seja, foi chato ter de ficar vestindo a camisa do Vasco (tá, vai que tem leitores cariocas por aqui...), algumas mulheres, talvez, achassem chato ter uma faixa dividindo os seios ao dirigir (eu, particularmente, acho muito sexy mulheres com esta faixa transversal que proporciona uma protuberância feminina deveras interessante...se é que me entendem...), outros executivos talvez se indignassem com o conseqüente amassar das camisas minutos antes de reuniões importantes mas, depois, acostumamos, sim, acostumamos, talvez pelo fato de não querer pagar por mais um hábito, ou mal hábito, mas acredito que a maioria das pessoas (pelo menos eu penso assim) pensa em não pagar um preço muito mais alto que um simples, fatídico e inconveniente boleto: o preço da vida.
Partindo deste princípio (o do assunto, não do texto, pois este já está lá em cima), por que o governo federal, estadual, municipal, ou até todos juntos (aêêê...festinha) não multam estes seres idiotas e insensíveis (tenho certeza que essas pessoinhas não gostam de arte) quando jogarem sequer um pequeno pedacinhozinho, inhoinho, titiquinho de nada, papel de bala? Olha, sei que vão reclamar, vai virar matéria nos jornais, discussão em mesas de bar (essas eu adoro, estou sempre lá), assunto de tia que visita prima que mora longe, vai virar papo de cunhado que não vai com a cara do cunhado no churrasco, enfim, vai virar notícia até no palácio de Buckingham, mas, veja pelo lado bom: talvez funcione.
É João, mas e as criancinhas sem noção que jogam tudo no chão? Claro, esta estariam na categoria de não-estapafúrdios, por não saberem o que estão fazendo, sem dúvida. Mas e os adultos sem noção? Bom, esses entram na categoria super-estapafúrdios, sem dúvida. É o que sempre venho (e vou) dizendo: se os brasileiros adoram os Estados Unidos, adoram os filmes toscos, explosões, roteiros fraquíssimos e manjados americanos com seu universo kitsch na vida real e nas telas, que amam um seriado de mulheres bonitas, gostosas, peitudas (não sou hipócrita, eu adoro peitudas também), que adoram rostinhos de barba feita e musculosos bombados e ocos, por que não copiam as coisas que os americanos sabem fazer? Respeitar as leis do jeito que devem ser respeitadas eles fazem bem. Por que não fazemos um benchmarking das coisas boas? Não, só copiam o que é ruim, fútil ou nocivo à sociedade. Depois vem brasileiro estúpido que morou nas terras do tio Sam dizendo que lá é tudo limpo, mas que aqui não acontece isso e quando termina de dizer joga um pacote de lanche de fast food pela janela do carro com total desinteresse por evoluir-se. Por que? Multa então! Multa! O país já está acostumado a pagar impostos, muitos deles desnecessários e exorbitantes, mas este nem precisava ser caro (faturariam absurdo do mesmo jeito), mas seria por uma boa causa, uma multa onde estariam vendo, literalmente, a limpeza das cidades. E espero que sejam limpos também no destino destes valores recebidos pelos contribuintes desavisados, ou (na maioria) não. Se queremos uma cidade limpa, comecemos a limpar nossas mentes primeiro neste sistema frágil, nada ágil, que precisa de um plágio, e dos bons.
Posso estar exagerando, sei que sou exagerado e fico irritado com coisas erradas, mas acho que seria uma boa alternativa, visto que aquecimento global é a pauta do século e que o senhor orelhudo engravatado poderosos não quis assinar o protocolo de Kioto inicialmente (putz, esse cara é formidável), acho interessante começar a dar um presta atenção nas pessoas que poluem rios, mares, ruas e afins.
A água vai secar, o mundo aquecer, a camada do nosso famoso ozônio indo pra outros ares e a população rindo num carnaval de copinhos descartáveis desejando sediar uma Copa do Mundo onde a copa está tão suja quanto a cozinha e, assim, não dá pra fazer sala, nem pra inglês ver a mesinha de centro recém perfumada com Veja Multiuso até nas flores de plástico. Não vamos varrer a cidade só onde o padre passa.
Copiemos, sim, mas copiemos o que precisa ser copiado.
E, aproveitando, parabéns ao Piquet. E parabéns aos piquetes que fazem os indignados pelas ruas, ainda, bem sujas na cidade limpa.

João Aranha

01/08/2007

Durma bem

Olá, pessoas! Este desenho é de uma amiga talentosa, Suelen Dias. Uma menina sensível, com grande talento e versatilidade para os desenhos. Eu, vendo seus trabalhos, resolvi fazer um poema para uma de suas ilustrações. E aí, fiz este.
Valeu, Suelen! Obrigado pela colaboração e comentários. Continue desenhando seu futuro com arte!



Durma bem

Dorme
No sono
No escuro
Dorme
Na luz da tristeza
Dorme
Encanta a beleza
Se faz plena
Incerteza
Descansa o dia
Tua noite é meu dia
Dorme
Alma branca
Pura, cândida
Dorme
Passeia nas florestas
Recosta entre as frestas
Pequena luz
Tua luz
Que acalma
Que deita
Fica forte
Voa fada
Mergulha sereia
Dorme menina
Fonte mulher
Paz pueril
Desejo vil
Dorme fadinha
Deita à noitinha
Olhos cerrados
Lábios lacrados
Poesia branda
No corpo que emana
Dorme
Descansa teu sono
Acorda os homens
Siga tua asa
Beijo-te em brasa
Em teu sono singelo
Teu lar, cogumelo
Brinquedo, picardia
Fomento, alegria
Dorme menina
Acorda mulher
Sufoca teu homem
Meu bem-me-quer
Dorme, dorme, dorme
Adormece a fadinha
E de manhazinha
Acordo teu corpo
Desperto tua alma
Vai menininha
Voa, salta
Volte à tardinha
E no sono seguinte
Faço um cafuné
No cheiro de mulher
Que dorme, dorme, dorme.

João Aranha

09/07/2007

Quem quiser conhecer o trabalho da Suelen, acesse o site e veja os belos traços da garota:

http://fantasmaamarrotada.blogspot.com



 

5 Segundos

Curto
Rápido
Intenso
Suficiente

Um olhar
Outro olhar
Riso pára
Pára o riso

Vai lenta
Negra vestimenta
És alva
Me atormenta

Sem nome
Sem som
Rastro
Silhueta

E na ampulheta
Pouco tempo
Raro, parco
Passatempo

Seus olhos
Te vejo
Seus olhos
Almejo

Vai, sái
Volta, olha
Pairo no ar
O chão não está

Nuca, desenho
Marca, sinal
Pouco foi
Muito tive

Foste, viste
Corpos, em riste
Sorrisos cessam
Desejo, existe

Some, voa
À esquerda, à toa
O voltar
Insiste

Não sei, pouco vi
Entrou, olhou, partiu
No repente
Enlouqueci


Foi-se o tempo
Ficou tormento
E neste tempo
Eu bem vivi.

João Aranha

25/06/07
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